Os alertas do Google Scholar soaram com a recomendação de mais um artigo sobre IA e jornalismo. O trabalho intitulado “AI News Anchors, Automated Journalism, and the Transformation of Journalistic Authority: A Conceptual Framework“, surgia publicado na Journal of AI Communication and Society, uma revista desconhecida até então. O título fazia crer que seria uma obra relevante para adicionar à biblioteca. À primeira vista, nada de invulgar.
Uma primeira leitura permitiu identificar o uso de referências basilares nesta área: Carlson, 2015; Clerwall, 2014; Diakopoulos, 2015; Graefe, 2016; Guzman & Lewis, 2020; Montal & Reich, 2017; Thurman, Dörr & Kunert, 2017 e Wölker & Powell, 2021. O autor do artigo era, no entanto, um nome desconhecido, Oliver Hughes, com afiliação da University of Sydney.
Pesquisámos o seu perfil académico, incluindo nos site da referida School of Art, Communication and English, mas sem sucesso. O paradeiro de Oliver Hughes, com um contacto de email genérico “oliver.hughes@academicmail.org” era, portanto, incerto.
A investigação prosseguiu pela própria revista. A Journal of AI Communication and Society apresentava apenas um único número publicado a 6 de junho de 2026, com cinco artigos. Uma leitura atenta destes textos revelou um padrão recorrente: a mesma estrutura, a mesma base teórica, as mesmas ideias, os mesmos títulos… Alguns cliques depois, concluimos que os artigos não eram mais do que resumos gerados por IA, e que não aportavam qualquer valor científico.
As dúvidas tornaram-se mais sérias quando procurámos confirmar a identidade dos autores e dos membros do conselho editorial. Nenhum dos nomes indicados foi encontrado em bases de dados académicas, perfis de investigação ou outras fontes institucionais credíveis. Ou seja, nenhum dos autores dos artigos ou dos editores da revista existia, de facto. Em contacto com uma das universidades mencionadas como afiliação, tivemos a confirmação. Sem grande surpresa, Tijmen Lansdaal da University of Amsterdam, salientou as diferenças entre as revistas verdadeiras e as fictícias eram perceptíveis, pelo menos para os investigadores: “Thankfully, the difference with real journals is quite noticeable. Hopefully, this is also true for the general public“.
Este episódio mostra a facilidade com que as tecnologias de IA generativa conseguem produzir conteúdos, sobretudo textos, cada vez mais próximos da escrita académica. Mas o uso de IA como ferramenta de apoio não é, por si só, um problema. O problema surge quando a IA é usada para fabricar conteúdo apresentado como investigação científica ou quando um site se faz passar por uma revista científica, simulando nomes de autores, artigos e afiliações.
Partilhamos esta experiência como um alerta à comunidade académica.